Steve - The Friend

print this page
send email

Ontem foi aniversário do Fábio, com festa e etc. Fui convidado, mas não compareci. Fiquei muito irritado ao saber que o escroto estaria lá. Porque qual é, eu sou amigo do Fábio há muito mais tempo! Que falta de consideração.
Sim, para mim é eu ou ele. Não estava brincando quando disse isso a Rachel, com o Fábio do lado. É chato saber que eles não se importam. Eles acham infantilidade da minha parte, não ir a lugares onde ele esteja… antes fosse.
- The One in Love  –
(Outubro de 2012)
Ele foi gentil ao praticamente me obrigar a sentar. Eu tinha acabado de chegar na tal empresa a qual eu começaria a trabalhar e estava lá para apresentar alguns layouts (design de websites). Confesso que minha primeira impressão dele foi a melhor possível. Achei ele legal, carismático e muito bonito. Seu gosto musical mais bonito ainda.
Esperava o tal Michael chegar para aprovar meus trabalhos e então entrar para a equipe. Uma pequena equipe: Michael, o tal programador, Mary, a secretária, John, o patrão e Steve, o carinha da manutenção. Eu seria o novo programador, já que o atual estava saindo para carreira solo. Não iria abandonar completamente a empresa, já que eu não tinha nem 10% do conhecimento dele. Ele era um cara de uns 40 e poucos anos, eu tinha 17. Ele tinha doutorado, eu um curso básico. Ele disse que iria me ajudar e que a empresa pagaria alguns cursos.
Minha maior preocupação era que eles não soubessem que eu era apenas iniciante. Meu medo era que eles jogassem trabalhos em cima de mim dos quais eu não conseguisse cumprir. Deixei isso bem claro e mesmo assim fui aceito. Eu estava tão feliz. Conseguir um emprego na área que você ama é como um sonho. Claro que na vida real nada é perfeito.
Steve trabalhava comigo na parte da tarde. Eu tentava conhecer ele mas tudo que eu sabia era que ele tinha uma banda e que era muito maduro pra um cara de 19 anos. Ele é daquele tipo de pessoa misteriosa: descobre seus gostos, medos, pontos fracos e depois ataca.
Tentava ao máximo conversar com ele e alguns assuntos ele até gostava, como música. Falava das bandas do qual eu curtia e ele era o mais verdadeiro possível. Até hoje admiro isso nele, não é aquele tipo de pessoa que fala coisas para te agradar. Os dias foram passando e eu ficava cada vez mais próximo dele.
Eu não tinha amigos. Eu não sabia o que era ter amigos, não sabia como agir. Eu achava que estava no caminho certo. Após alguns meses, já o considerava meu melhor amigo. Contava tudo a ele, desde coisas bobas como “ganhei feliz aniversário do google hoje” até coisas sérias, como o abuso sexual na infância. Eu acho que ele me entendia.
No dia que contei do abuso, ele disse que essas coisas acontecem, e que as pessoas são más. Mas que isso era passado e eu tinha que deixar o passado lá trás, não ficar remoendo esse tipo de coisa. “O que passou, passou. Você não pode mudar isso”. E com um abraço, percebi naquele momento que ele era especial.
Nessa época eu estava com muitos problemas em casa, com família, etc. Sempre fui a ovelha negra, “o rockeiro revoltado”, então meio que já estava acostumado com eles falando de mim pelas costas. Só não entendia mais o porque deles continuarem, já que eu estava trabalhando.
Então conversava diariamente com Steve sobre isso. Ele me dava forças para continuar, me contando que ele também tinha tais problemas. Disse que nunca se deu bem com pai mas por infantilidade dele. Que eu tinha que crescer, pois ele tinha feito isso e tinha dado certo. Na época eu não tinha entendido o que ele queria dizer com aquilo, mas hoje entendo.
Demorou para que Steve se abrisse comigo sobre seus sentimentos e problemas. Quando ele fez, me senti amado. Eu era tão carente. Ele chegou a me contar da sua ex e do quanto ele ainda a amava. Então foi a hora de eu agir, e eu dar conselhos. Papo furado, claro, eu não tinha experiência nenhuma naquilo. Nunca tinha tido uma namorada, ou algo do gênero. Só fazia o que tinha visto nos filmes. Então fomos ficando mais próximos.
Era Agosto e eu iria comemorar meu aniversário duas semanas antes do mesmo, pois minha mãe estaria livre naquele dia. Ela combinou de fazer uma lasanha na casa da minha tia, e chamar meus irmãos e alguns amigos. Foi super legal. Minha irmã levou alguns amigos dela que eu tinha conhecido no ano-novo, e o Elton. E eu tava afim de encher a cara naquele dia, o que eu fiz.
Festa entre família não é tão legal quanto parece, mas essa foi. Aquele dia realmente foi. Minha tia é bem louca então ela meio que anima tudo. Era tardezinha quando fiz a coisa da qual mais me arrependo: chamei Steve pra festa.
“Vem cara, ta todo mundo aqui, e cerveja grátis, então…” e ele aceitou. Disse que tava na empresa, que tinha passado lá pra pegar alguns softwares. Também disse que não sabia onde minha tia morava, então eu teria que explicar a ele. Disse pra ele não se preocupar, que eu o-buscaria. Ele ficou esperando na empresa.
Eu estava meio embriagado. A língua não obedecia muito, e o chão da rua não parava quieto, mas consegui chegar na empresa. Ver ele me deixou muito feliz. Ele disse que não ia me dar feliz aniversário porque ninguém faz dois aniversários por ano. Eu ri e dei um abraço nele, daquele tipo que demora pra soltar. Fomos andando até a casa da minha tia, e estava escurecendo.
Quando chegamos, eu levei um susto. Não havia mais festa. Todos tinham ido embora, minha tia disse que eles ficaram bem chateados pelo aniversariante abandonar a festa. “Eu não fui embora, fui buscar o Steve”. Ela disse que eu tinha que ter avisado, mas que ainda tinha cerveja. Eu ri e fui pegar duas latinhas. Steve cumprimentou minha tia, e eu chamei ele do lado de fora. Sentamos sozinhos na calçada e ficamos conversando. Ele disse que não bebia muito, mas ia aceitar por educação. Então ele começou a falar sobre a sua infância. Achei que ele ia falar algo do tipo “também fui abusado”, mas ele só tava jogando conversa fora. Então eu toquei no assunto da Amanda, a tal ex-namorada. Ele disse que não tava afim, mas insisti.
Então falei que aquilo não era justo. Que ele ainda a amava, e ela pouco se importava com isso. Pra ele esquecer ela, porque ela já tinha feito o mesmo há muito tempo. Disse que ela tinha machucado ele, e pessoa daquele tipo não é legal manter em nossas vidas. Ele ficou quieto. Então eu fiquei quieto. Ficamos por um tempo assim. Aquela rua deserta e a escuridão cobrindo o céu, era um momento só nosso.
No outro dia de manhã me surpreendi ao ter um SMS que não fosse da Operadora de Telefonia. “Vlw cara… Não me pergunte porque, só… vlw”. Comecei o dia super feliz. Como uma mensagem boba pode mudar tudo… Achei Steve o cara mais legal do universo.
No trabalho, eu via Steve de um jeito diferente. Ele parecia mais fofo e mais bonito também. Seu sorriso me encantava.
“Que porra ta acontecendo comigo? Qual é? Eu sei que sou hétero, ele é só meu amigo. Isso é fase, é só uma fase” - forçava nos meus pensamentos. Mas ele parecia cada vez mais carinhoso… Cada toque, cada abraço… não era mais uma coisa normal.
Caramba, eu estava me apaixonando pelo meu melhor amigo!
Não sabia como lidar com isso, e não sabia como esconder. Tentava ao máximo evita-lo, mas era muito difícil. Depois daquela noite, ele parecia gostar mais de mim, e eu acabei misturando as coisas.
Depois de algumas semanas, já era insuportável. “Vou me demitir, não tem jeito”. Era o que eu mais gostaria de fazer, não dava mais pra ficar com ele no mesmo local, sentindo tudo aquilo que eu sentia. Então eu fiz pior que pedir demissão, eu contei a ele.
O fato de você amar uma pessoa, é duro, porque você nunca sabe se a pessoa que você gosta, irá gostar de volta. No meu caso, era mais difícil ainda. Quando penso no que houve entre nós, digo que eu fui o errado. Eu misturei as relações. Não era paixão, era carência.
- Cara, eu preciso falar com você.
- Fala aê.
- Não, é uma coisa séria… Quando a Mary for embora, nós conversamos.
- Ok… _ ele disse curioso _ Mas é sobre o quê?
- É sobre você… Depois eu te falo _ eu falava com a garganta doendo, uma vontade de chorar _ …você vai saber.
A tarde passou mais devagar que nos outros dias. Ele agia normalmente, arrumando computadores como se nada estivesse acontecendo. Eu não conseguia fazer nada. Encarava ele as vezes, mas disfarçava quando o mesmo notava.
O nervosismo começou as 17h, quando a Mary começou a pegar as coisas para ir embora. Nosso chefe não ficava na empresa, passava o dia visitando clientes. Eu só queria ficar sozinho para ter forças pra falar. Eu ia estragar tudo, mas antes me arrepender de algo que fiz, do que morrer na dúvida do que poderia ter sido. Então ela saiu…
- Dave, vai falar o que é o assunto sério?
- Vou… Mas me dá um tempo… _ fui até o filtro pegar um copo d’água, para engolir a pressão junto com a saliva _ Cara, eu fiz algo…
- Você não matou ninguém, não é mesmo?
- An? Na… Não, claro que não, por que eu iri…
- Roubou uma empresa milionária e não quer dividir a grana?
- Não… Steve, é sério.
- Calma, só tô querendo quebrar o gelo… Você ta tremendo…
- É… frio.
- Só to dizendo que a menos que tenha feito isso, vou ficar realmente bravo… do contrário, eu não acho que pode ser tão
- Steve, to apaixonado por você.
Ele ficou calado. O rosto de apreensão mudou totalmente. Ele só ficou… calado.
- Eu fiz algo do que não me orgulho, que foi começar a gostar de você… E eu não sei porque to sentindo isso, mas eu não controlo meu coração… Eu te amo, e eu não queria sentir isso. Eu só queria ser normal e ter um amigo normal, e… ser normal. E sabe, eu to ficando bem nervoso, e se você puder falar alguma coisa… tipo, agora.
Ele engoliu a seco. Então ele não falou nada. E eu comecei a chorar.
- Me desculpa… me desculpa por isso… me desculpa por gostar de você… eu não vou mais…
Eu não consegui manter as lágrimas, a dor na garganta era muito forte, o copo d’água estava vazio. Doía tanto ser rejeitado, tanto. Mas ele não tinha culpa, eu era o culpado. Ninguém é obrigado a amar ninguém.
- Calma… é só, eu tô surpreso. _ ele disse num tom sério _ Cara, eu gosto de você, mas não dessa forma. Você não me ama, só acha que ama. Eu não curto… você sabe. Eu sou hétero. Acho legal da sua parte ter me contado, e legal, você me ama, valeu. Mas não posso fazer nada. Se você quiser um amigo, eu estarei aqui… Mas nada mais do que isso. A única coisa que te peço, é que nunca dê em cima de mim, nem jogue cantada, porque você vai estar perdendo seu tempo, e um amigo… E, meu Deus, desde quando?
Eu não conseguia falar. Eu só chorava. Um choro silencioso, vazio, e que doía no fundo do peito. Doía muito. E eu não tinha forças pra falar.
- Tenha seu tempo… E pense direito, se você é realmente… Cara, sabe que bichas são muito maltratados… maltratadas no mundo, então pense bem… Se você escolher isso…
E aquela palavra foi o que poderia ter me matado. Eu fui até o banheiro, joguei uma água no rosto e fui embora. Não queria mais falar com ele. Eu sabia que não era culpa dele, mas eu realmente queria ficar sozinho. Então foi onde eu percebi que não tinha mais ninguém. Nenhum amigo, ninguém. E a depressão me abrigou em seu colo. A dor era uma droga.
E eu viciei.
{Anterior: Capítulo 3 - Rachel | Próximo: Capítulo 5 - Joey}