Nick - The First Night

print this page
send email

Então enxuguei as lágrimas dele e comecei a me sentir estranho. Do tipo “o que eu faço?”, até porque eu nunca tinha passado por aquilo… Não por ter um amigo chorando por causa da ex, e sim ter um amigo. Ele estava aos prantos e eu não sabia o que fazer.

Fiquei tentando consola-lo, mas era bem difícil. Ele era tão lindo. Ver um cara daqueles chorando era de cortar o coração. Após ele me falar tudo que tinha pra falar, e então começar a chorar, esqueci completamente que estávamos no bar do rock. Os que olhavam, deviam pensar que era um casal de gays brigando… Não, acho que não. Não sei o que eles pensavam. Homens não choram, muito menos em público. Era apenas estranho.

O Nick tava muito mal. Já tinha perdido a conta de quantas cervejas tínhamos tomado. O convite três dias antes parecia um tanto tentador. “Eu e você, no bar do rock, beber umas… Preciso desabafar cara.” Me senti a pessoa mais amada do mundo. A que ponto eu tinha chegado hein? Ter um amigo… Sair com um amigo… Ser o ombro desse amigo… Impressionante.

Ele me contou da época de escola. Eu estava prestando atenção nele, mas aquela gostosa dando uns olhares pra mim enquanto jogava bilhar estava me enlouquecendo. Acho que tava bêbado demais a pensar que uma mulher daquelas ficaria com um cara como eu. Seja como for… Nick então começou a chorar novamente. Não do tipo com barulho e alto (ex: aaaah, eu to mal… ninguém me ama), mas rolando umas lágrimas heteras.

“Você acha que ela tá afim de mim?” apenas disse isso, lançando um olhar pra ela. Ele disse que não, depois completou com um talvez. E então, disse que eu não tava prestando atenção no que ele tava dizendo, e que ele era um chato. Neguei, e consolei ele dizendo coisas que ele queria ouvir como “Cara, minha irmã é a errada, não você… Eu a-amo, mas não recomendo ninguém a se apaixonar por ela… Ela é muito rápida. Digamos que ela se apaixona rápido, e desapaixona mais rápido ainda.” Foi o suficiente pra ele enxugar as lágrimas e mandar o clichê de “É, você tá certo”.

Lembrando da noite agora, me sinto mal. Sinto que poderia ter me importado mais com ele do que ficar pensando em sexo. A mulher, que mandava sorrisos, era casada. Aliás, o cara com quem ela jogava (que mais parecia o pai dela) era o tal marido. A noite começou a ficar legal (não que não estivesse legal, eu amo o nick) quando o dono do bar colocou Megadeth pra tocar. Era o show do bigfour, um dos meus favoritos.

“Vey, vamo entrar! Tá tocando mega porra! Mega caralho!”. Ele riu, disse que não tava afim e que eu podia ir la, e que ele queria ficar um pouco sozinho. A banda favorita do nick é offspring… Yeah, weird. Então ele não curte, muito menos conhece as músicas do mega. Acabou que eu obriguei ele a entrar comigo, a gente ficou sentados no balcão, bebendo, e eu pagando o mico de fazer o bate cabeça mais forever alone do mundo. Oh fuck it, eu tava feliz.

Então, quando ia chegando o final do show, nick começou a passar mal. Ele disse que iria até o banheiro, mas que tava tudo bem, “a bebida que desceu rápido demais”. Queria ficar curtindo, mas acabei indo atrás dele porque ele tava demorando. Cheguei e vi ele sentado em frente ao banheiro, naquele lugar escuro, com aquela cara de morto. “Você tá bem?”, ele não respondeu. Sentei ao lado dele e fiquei fazendo companhia. Que noite! E então, vejo um cara familiar entrando no banheiro. Sim, era o Elton. O outro ex-namorado da minha irmã (que o nick odeia, tanto quanto eu). Até aquela noite, éramos o típico “eu não vou com a sua cara, você não vai com a minha, mas vamos fingir que somos educados e conversar :D”. Até aquela noite.

- Elton?
- Dave? Nick?! _ como se tivesse feliz por ver meu amigo naquela situação _ O que houve? Você tá morrendo cara? _ disse ele irônico
- Tô… eu tô legal. _ respondeu Nick entre arrotos
- O que faz aqui? Veio sozinho? _ perguntei
- Não, vim com uns amigos. Cadê a Rachel?
- Não sei, veio só eu e o Nick… Sobre aquela foto, tipo, não me importo com o que você sentia, sente, então, não tô pedindo desculpas nem nada, só…
- Relaxa cara, não ligo.
- Não sério, é que tipo…
- Não me importo mais com a sua irmã, nem o que ela faz. Ta ok. Era só uma foto dela beijando o nick, dois dias depois de terminar comigo, um relacionamento de dois anos, só isso. Uma foto dela beijando um dos melhores amigos, nada demais.
- Então né _ não consegui manter a ironia _ alguns se dão bem, outros se fodem. É a vida.
- Pois é. Acho que o Nick não ta se dando bem hoje haha.
- Sabe que eu nunca fui com a sua cara? _ eu disse com uma vontade tremenda de avançar nele
- Claro que sei, também nunca fui com a sua. _ ele riu, com aquele sarcasmo nojento

Ele disse que tinha que descer, porque os amigos estavam esperando. Não foi naquela noite que consegui realizar meu desejo de quebrar a cara dele, mas pelo menos não teria mais que fingir gostar do mesmo. Ajudei o nick a se levantar e descemos pra pagar a conta. Não dava mais pra ficar lá com ele naquele estado. Os caras que entravam naquela sala para ir ao banheiro, e viam eu sentado la com o nick, sozinhos, (após a cena do choro ao ar livre) com certeza pensavam coisas sobre nós. Era engraçado porque eu não importava. Seria até legal, nick é uma delicinha xd.

Fomos embora, ele se apoiando no meu ombro, e dessa vez literalmente. Meus planos de ir embora as 22h foram por água abaixo quando o show do Mega começou. A conversa com o nick tava tão legal, e o show era tão divertido, “tudo bem, eu me fodo depois”. Chegou a hora de eu me foder, e eu não sabia pra onde ir. Já passavam das uma da madrugada e não havia mais ônibus. Eu quase sem dinheiro, é… eu tava ferrado. Nick tava bêbado, mas acabou notando do meu suposto problema. “Whoa, man, já são uma da manhã!” disse ele olhando para o celular. Eu, claro, fiz meu jogo, disse que me virava, pra ele ir embora, eu daria um jeito. “Claro que não, cê dorme lá em casa.”

Okay, agora chega a parte dos medos. Por problemas emocionais (tenho quase certeza que era por isso) eu urinava na cama. Fiz xixi na cama até aos meus 12 anos, e ainda após, quando bebia muito, acabava tendo uma recaída. Agora imagina a pessoa mais azarada do mundo: eu. Tinha quase certeza que isso aconteceria, não pelo fato do azar, mas pelo fato de eu ter bebido a noite toda. Assim que eu deitasse, eu iria apagar. E não sei porque, o fato de mijar na cama sempre acontecia na casa de estranhos, nunca em casa (mais um motivo de eu nunca gostar de dormir na casa dos outros). Insisti pra que ele deixasse eu ir embora, mas ele tava certo, era muito perigoso. Fuck it.

Bebi muito, mas ainda tinha consciência do que tava fazendo. “Okay, mas vou dormir no chão.” Claro que ele fez jogo duro, disse que não, que eu dormiria na cama dele, e ele no sofá na sala. Acontece que eu sempre ganho uma discussão (menos com a rachel, minha irmã). Tivemos que buscar um colchão que ficava no porão da casa dele. Foi engraçado porque tava tarde, e não podíamos fazer barulho, já que os pais dele estavam dormindo. Quando ele puxou o colchão, acertou a estante e caiu tudo, fazendo o maior barulho. Segurei pra rir, mas não consegui. Ele fez “shiu” com a boca, mas não aguentou também e caiu na gargalhada. Eu ficava “cala a boca (rindo), seus pais (rindo mais ainda) vão acordar porra (chorando de rir)”. Descemos as escadas, entramos e a luz da cozinha estava acesa. O pai dele era legal. Tipo, muito. Se fosse o meu… bem, essa cena nunca rolaria na minha casa e não moro com meu pai, então…

Entramos no quarto do nick após o pai dele dizer pra não fazer barulho, que a mãe do nick tava cansada, que tinha trabalhado o dia todo. O nick arrumou o colchão no chão, e depois me mostrou seu violão, enquanto improvisava a intro de Sweet Child o’ Mine. Nota: ele não tava improvisando. Pois é. Ia mandar ele parar de fazer barulho, até que a mãe dele bate na porta do quarto.

Ela me cumprimentou e foi super boazinha. Os pais do nick eram o máximo! Ela disse que o quarto da irmã dele tava disponível, que não precisava do colchão. Eu insisti que ela deixasse eu dormir ali, que eu me sentiria mais confortável. Ela então deu boa noite e saiu. Deitei na cama e olhei pro teto. Aquela luz branca e forte. Porra, eu tava dormindo na casa de um amigo, após ter saído com o mesmo. Isso era tão incrível! “Ba noitche deivi” e então ele apagou a luz.
Na manhã seguinte eu acordei e a primeira coisa que fiz foi por a mão na calça. Ufa, tava seca! Dei um abração no nick, que tinha acabado de levantar. “Cara, tu ronca pra caralho!” ele disse rindo.
Naquela manhã tudo parecia perfeito, até eu lembrar que não tinha pego a chave de casa em cima do balcão. Pensando nisso agora, acho que o Nick salvou minha vida. Imagine, após passar pelo meu bairro as 1h40 da madrugada, a pé, sozinho… E (caso conseguisse sobreviver) chegar em casa e ter que tocar a campainha pra minha vó abrir o portão. Yeah, eu seria um cara morto.
{Anterior: Capítulo 1 - Dave | Próximo: Capítulo 3 - Rachel}